• Adriana Dias Titton

Um corpo em transformação

Atualizado: Set 9

Nem me lembro mais por onde tudo começou. Acho que estava incomodada com o joanete do meu pé esquerdo, que estava começando a ficar mais dolorido e a crescer. Como Rolfista, estava determinada a descobrir o que na estrutura e nos padrões de movimento do meu corpo estava gerando esse desalinhamento progressivo. Gosto de me dar conta de que nosso corpo é realmente um organismo vivo, não apenas no sentido de imbuído de vida e animado, mas de que é uma estrutura dinâmica, que está constantemente se adaptando ao que lhe acontece vindo do nosso mundo interno (nosso próprio organismo) e do mundo externo. E assim tenho feito descobertas incríveis e inéditas sobre minha estrutura e, com elas, a sensação deliciosa de me sentir cada vez mais livre e mais inteira no meu próprio corpo.


As investigações sobre meu joanete me fizeram perceber uma torsão da estrutura fascial cuja origem era bem mais distante do que eu jamais imaginara ou sentira: aquilo que eu imaginava que era um problema que vinha da perna começava, na verdade, de uma torsão da pelve envolvendo camadas muito profundas (que eu sentia quando fazia algumas posturas de yoga , mas uma sensação de preso e torcido que não tinha conseguido desvendar ainda) e que, aos poucos, com um trabalho de liberação e de movimento espontâneo, foram distorcendo e desamarrando. A consequência? Um movimento de caminhar que parecia um pouco manco, como se a perna direita fosse um pouco mais curta que a esquerda. Uau! Uma grande surpresa mas que, ao mesmo tempo, me ajudou a entender por que meu lado direito sempre foi mais integrado (é o lado em que sinto mais estabilidade) e o esquerdo ficava meio como "acompanhante"(e muscularmente mais fraco inclusive: pé mais estreito, panturrilha com menos massa muscular e coxa com menos tônus). Por conta própria, experimentei usar por alguns dias uma palmilha um pouco mais alta nesse lado da perna mais curta. Resultado: uma sensação deliciosa de mais equilíbrio entre lados direito e esquerdo do corpo e de mais liberdade na coluna!


Outras descobertas importantes vieram na sequência: o eixo de equilíbrio do meu corpo estava muito projetado para frente, levando junto abdômen (ah! por isso a barriga sempre com pouco tônus, mesmo em épocas em que estava fazendo bastante exercício físico!), pelve, adutores (por isso a parte interna das coxas sempre mais gordinhas...) e arcos dos pés caídos, desencadeando os joanetes. Trazer o eixo do corpo um pouco mais para calcanhares tornava automaticamente todo esse conjunto mais organizado: os pés faziam um movimento natural de montar os arcos mediais, as pernas se organizavam de um jeito novo que criava mais tônus nos adutores das coxas, a posição da pelve se organizava (com o osso sacro apontando mais em direção ao chão e aliviando a lombar), o abdômen ficava naturalmente mais tonificado e chapado e a respiração tornava-se mais ampla (porque as costelas na região das costas tornaram-se mais livres para abrir e participar dos movimentos da respiração).


Conforme fui descobrindo esses desvios, fui procurando sentir no meu corpo se havia regiões que estavam mais aderidas, mantendo esses desvios, desalinhando minha postura e meus movimentos. E havia várias delas! Costelas, lateral da pelve, lateral das coxas, adutores das coxas, dorso dos pés... E quão interessante foi perceber que "coincidentemente" essas eram regiões que esteticamente tinham coisas que me incomodavam: "dobrinhas" com mais gordura acumulada, falta de tônus muscular, mais celulite. Na formação do Rolfing, um dos instrumentos de leitura corporal que aprendemos, para entender o que está acontecendo nas relações entre os vários segmentos do corpo de nossos clientes, é observar o que acontece na superfície da pele (mais especificamente as linhas diagonais e horizontais que se formam), pois a aparência dessa superfície revela como a estrutura profunda postural está organizada. Então, perceber esse fenômeno no meu próprio corpo foi esclarecedor! As "dobrinhas" nas costas não eram, então, uma questão estética de estar mais gordinha ou mais magrinha: eram um "relevo" que se formava na superfície da minha pele porque uma pequena parte do tecido das camadas um pouco mais profundas sobre minhas costelas estava aderido. Da mesma forma, mais celulite em algumas regiões do corpo também não era uma questão de quantidade de gordura: eram consequência de regiões de tecido com mais aderência, o que impedia uma melhor circulação e irrigação na região, tornando o tecido mais congestionado.


Essas experiências tem me permitido constatar mais profundamente na prática conceitos que eu já havia aprendido e experimentado em níveis mais superficiais: que a fáscia é o órgão de estrutura e postura do nosso corpo. É ela que nos dá nossa forma e nosso contorno individual, particular e único. E esse contorno forma-se ao longo da nossa história, a partir da maneira como usamos nosso corpo, nos movimentamos e nos sustentamos. E, assim como na vida, podemos reconhecer e honrar nossas experiências passadas ao mesmo tempo em que nos permitimos viver experiências novas e nos tornarmos pessoas diferentes, o mesmo acontece no corpo. Podemos descobrir sobre nosso passado reconhecendo as formas, relações e padrões do nosso corpo, ao mesmo tempo em que podemos nos abrir para novas formas, contornos e movimentos. Para mim, essa tem sido uma experiência de descobrir cada vez mais uma beleza e uma vitalidade que estavam escondidas em mim. E esse é um caminho que o Rolfing pode nos ajudar a trilhar, por meio do toque, da autopercepção e do movimento.




65 visualizações
  • Black Twitter Icon
  • Black Facebook Icon
  • Black Google+ Icon

© 2019 por Adriana Titton. Criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now